
Do pequeno ao extraordinário: como eu fiz para me desenvolver na carreira docente mesmo atuando em escolas pequenas
Lecionar em comunidades pequenas e em escolas de bairro pode parecer um desafio quando se deseja crescer na docência. Mas por que isso acontece? Simples: o cenário docente atual é extremamente desafiador. Escolas com baixa infraestrutura, recursos escassos, uma sociedade que muitas vezes enxerga a educação como algo fútil, o avanço das tecnologias sendo direcionado para fins supérfluos... uma infinidade de fatores que não caberiam em um único post.
E sabe como eu sei disso? Porque vivi essa realidade. Entre 2017 e 2023, passei cinco anos letivos presa em uma rotina que parecia não mudar nunca. No meu primeiro ano como docente, lecionei Ciências e Inglês para turmas do 5º ao 8º ano. Meu maior desafio era preparar aulas atrativas sem ter acesso a materiais básicos. O salário que eu recebia era contado para pagar as mensalidades do meu curso de inglês e a passagem de ônibus, enquanto eu vivia com a incerteza de até quando manteria meu emprego. Como era de se esperar, fiquei desempregada entre 2018 e 2019. Em 2020, fui indicada para uma nova escola de bairro para lecionar Inglês.
No início de 2020, parecia que tudo iria melhorar: uma nova escola, turmas diferentes (do 1º ao 5º ano), uma nova estrutura. Mas então veio a pandemia, e me vi de volta à estaca zero. Apenas no segundo semestre de 2021 para 2022 as coisas começaram a "voltar ao normal". Ainda assim, algo seguia desalinhado: eu não via perspectiva de crescimento na carreira docente, tampouco uma atuação alinhada à minha área de conhecimento. Sou Bióloga de formação e, agora, mestra em Saúde. Ensinar Inglês durante tantos anos estava completamente fora do que eu estudava e queria me especializar.
Sempre tive o desejo de "dar certo na vida". Sentia uma vontade enorme de fazer as coisas funcionarem, mas foi nesse período que percebi algo essencial: eu já tinha dado certo. Minha vida já estava nos eixos havia muito tempo, eu apenas não tinha notado. Não precisava mais "fazer algo funcionar" precisava crescer dentro do que já estava fazendo. O problema era que passar a vida inteira lecionando na educação básica nunca foi meu objetivo. E, de repente, vi o ciclo se repetir: ano após ano, dia após dia, planejamento após planejamento.
Foi nesse momento que me perguntei: "Como eu vou crescer se tudo o que quero está distante da realidade que vivo?"
A partir dessa reflexão, estabeleci um plano, ainda que exigisse coragem e renúncias:
Definir minha área e local de atuação ideal:
Meu foco era claro – docência no Ensino Superior na área da Saúde e Ciências Biológicas. Eu não podia mais me manter ensinando algo que estava distante do que realmente estudava e amava. Toda semana, me via presa em um ciclo de aprender conteúdo que não aplicava no meu dia a dia, e isso precisava mudar.
Encarar cada fase como continuidade, não como ponto final:
Ser professora de Inglês não era ruim, mas também não era o meu destino definitivo. Viver apertada financeiramente era apenas um momento da vida, não um carimbo permanente no meu futuro. Deixar um vínculo com colegas que amava não significava ingratidão ou rebeldia – era um passo natural do amadurecimento.
Assumir riscos, mesmo com medo:
Essa foi a parte mais difícil. Em meados de 2023, me mudei, assumindo novas responsabilidades financeiras: aluguel, contas, feira, móveis... tudo isso sem saber exatamente como me manteria. Mas eu sabia que não aguentava mais viver aquela realidade profissional e precisava dar um passo para fora.
Aceitar os "nãos" como caminho para o "sim" certo
Foram muitos "nãos" desde que decidi sair da educação básica. Participei de seis processos seletivos e nem cheguei à fase de entrevista. Em uma seleção, sequer pude me inscrever; em outra, fui barrada antes de concluir a inscrição. Moro em uma cidade pequena e, depois dessas tentativas frustradas, praticamente não havia mais opções. Mas então percebi: não era o meu currículo que faltava algo, eram esses "nãos" que estavam me direcionando para o "sim" que mudaria minha carreira.
Mesmo enquanto seguia esse plano, continuei dando o meu melhor. Minhas aulas de Inglês eram entregues com dedicação, eu abraçava meus alunos, valorizava minha equipe e enfrentava os desafios com a certeza de que tudo era passageiro.
Então, em 17 de novembro de 2023, aconteceu. Recebi uma ligação da minha "última carta na manga", a única instituição de ensino superior da cidade onde ainda não havia tentado. Do outro lado da linha, ouvi: "Levando em consideração esse cenário, você aceita estar conosco a partir de 2024.1?" E ali, naquele instante, percebi que, mesmo atuando fora da minha área por tanto tempo, eu havia chegado onde sempre sonhei
Hoje, olhando para trás, percebo que o desenvolvimento docente não acontece apenas pelos títulos no currículo. Ele acontece no dia a dia, na construção de cada tijolo ao longo da jornada. Se você hoje leciona em uma escola pequena, em uma comunidade de difícil acesso, ou enfrenta desafios semelhantes, lembre-se: o seu crescimento não está limitado ao seu ponto de partida – ele está na forma como você escolhe continuar sua história.
Dessa forma, olhando pra trás, percebo que o desenvolvimento docente ele não acontece, apenas, mediante os títulos presentes no currículo, mas também na colocação de tijolo por tijolo todo santo dia. Então, se atualmente você atua em uma escola pequena, em uma comunidade de difícil acesso ou em algum cenário semelhante, tenha em mente que:

Para não esquecer...

Se você quer crescer vai precisar passar pelo mais básico até chegar onde quer. Ninguém começa do topo.
Nenhuma realidade, por mais difícil que seja, dura para sempre quando você já tem internamente o desejo genuíno de crescer.

Se você desistir no primeiro não, jamais vai estar pronto para receber o sim, pois quem não tem força pra seguir com um não, não terá maturidade de saber o que fazer quando receber o sim.
Se você não faz o que precisa ser feito adequadamente no básico, vai chegar no mais avançado com a sensação de desespero e insuficiência. Nome se constrói ao longo da jornada, não apenas quando se recebe o "prêmio"